O PREÇO DO FOGO E O PESO DO SILÊNCIO

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O Preço do Fogo

E o Peso do Silêncio


Enquanto o mundo arde, o fogo queima mais além, nós assistimos ao incêndio pela tela fria do smartphone ou da TV. Estamos apáticos, sentimos uma preguiça de não pensar para não fazer doer ainda mais. Do conforto anestesiante de nossos lares, então consumimos essa loucura, essa tragédia geopolítica, sentindo uma frustração estéril, uma indignação de sofá que morre antes mesmo de cruzar a porta de casa.

Mas, ainda assim, este alerta precisa ecoar, precisa insistir, nem que tenha que reverberar como um soco no estômago de nossa inércia: não podemos mais ser a plateia muda assistindo o nosso próprio fim.

Há uma ironia totalmente macabra em todo esse tabuleiro global mais atual: menos de um punhado de pessoas com mentalidade velhaca e criminosa está nos ferrando silenciosamente por trás. É uma verdadeira “quadrilha” que sorrateiramente chantageia as rédeas da política sem ninguém notar. E pior, decidiu arriscar: risca um palito de fósforo sob uma nuvem de gás inflamável.

Mas afinal, quem irá se queimar?

Enquanto move a chama, sente-se protegido pela distância, não se importa com o preço da insana estupidez, sabe que será pago de imediato com a vida de crianças e civis inocentes que tombam sob o fogo. Mas a fatura dessa loucura não respeita fronteiras, pode ter certeza disso. O alerta é claro e universal: as classes trabalhadoras de todo o planeta arcarão com as consequências desse jogo insano de poder. Sim, isso mesmo, pode acreditar: somos nós a engrenagem que move o mundo, que continuamos, no fim das contas, a financiar com suor e empobrecimento, as bombas desses tiranos.

É exatamente por isso que o vazio de nossas avenidas é tão ensurdecedor e vastamente decepcionante…

Onde estão os milhões marchando? Sim! Onde está o levante popular exigindo o fim dessa insanidade?

O conformismo revela nossa cumplicidade. O alerta bate em nossa porta, exige nossa ruptura: parem de apenas assistir à mídia, recusem o papel de vítimas, tomem as ruas ou qualquer outro espaço de mobilização! É um dever moral dizer um sonoro “NÃO” a esse grupo criminoso que empurra a humanidade para o abismo!

Não nos enganemos com a ilusão de que este é apenas mais um conflito regional passageiro! A gravidade do nosso tempo está batendo em nossa porta e ninguém parece ouvir ou, quem sabe, espera alguém ir lá abrir…

Mas quem?

Estamos atravessando um dos momentos mais difíceis e críticos da história da humanidade, a turbulenta transição de uma ordem mundial para outra. A encruzilhada é impiedosa, não podemos nos afastar da TV! Mas perceba: se continuarmos de braços cruzados, se continuarmos nos recusando a nos envolver de forma mais sincera e ativa, o futuro cobrará seu tributo com guerras ainda maiores e cada vez mais sangrentas.

O alerta grita na porta, o recado foi dado e o relógio da história não perdoa a omissão. Ou a sociedade civil global se levanta para arrancar os fósforos das mãos dessa quadrilha ou amanhã todos nós, sem exceção, seremos consumidos pelo fogo que nos recusamos a apagar.


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O QUE RESISTE

O QUE RESISTE

Ilustração da Crônica

A guerra chega devagar, como um homem velho subindo uma escada. Primeiro um pé, depois o outro. Depois, quando você menos espera, ela está ali, sentada na sua sala, contando mentiras sobre honra.

Estive pensando nisso esta manhã, enquanto limpava meus óculos. As notícias chegam pelo rádio, pelas redes sociais, mas as notícias nunca contam a verdade. Dizem que o Irã está fabricando armas nucleares. Dizem ser preciso agir com a mesma voz com que disseram sobre o Iraque, sobre o Afeganistão, sobre tantos lugares que já não existem mais como existiam.

Estamos falando de uma civilização cujos ancestrais ainda viviam em cavernas. E isso não é arrogância, é apenas um fato. Os norte-americanos sequestraram o presidente na Venezuela. Disseram ser por causa das drogas. Sabemos que não é isso. É pelo petróleo que brilha na superfície da água como sangue de peixe.

Um homem pode justificar qualquer coisa se tiver uma boa história. Na guerra, aliás, cada um com sua própria justificativa. Não importa se eles têm famílias, têm receios, têm olhos que nos olham enquanto perecem. No final, a justificativa não importa. O que importa é que eles estarão mortos e eu estou aqui, escrevendo sobre isso.

O petróleo é apenas petróleo. Queima, move máquinas, suja as mãos. Mas os homens matam por ele como matam por mulheres ou por terras há mais de três mil anos. Nada muda. Apenas as armas ficam mais eficientes.

No Irã, as crianças ainda devem estar brincando nas ruas. Os mercados ainda devem estar cheios de especiarias e tecidos coloridos. Os velhos ainda devem se sentar à sombra das mesquitas azuis, contando histórias sobre Alexandre e sobre os árabes e sobre os mongóis que vieram e foram embora. Porque no Oriente Médio os impérios vêm e vão como as marés, mas o povo fica.

Agora virão os bombardeios inteligentes, as munições guiadas por precisão, os comunicados oficiais. Chamarão de operação, de intervenção, de defesa preventiva. Mas no fundo é sempre a mesma coisa: homens com poder enviando homens sem poder para matar outros homens que também não têm poder.

E quando tudo acabar, quando o último poço estiver seco e a última bomba tiver caído, o que restará? Os poemas persas ainda existirão. As mesquitas ainda estarão de pé, talvez. E os velhos continuarão sentados à sombra, contando sobre o tempo em que os americanos vieram, com suas justificativas e suas bombas, e depois foram embora.

Porque, no fim, a única coisa que realmente importa é o que resiste. O petróleo acaba. As justificativas também. Mas um povo antigo, milenar, que já viu impérios nascerem e morrerem, esse continuará.


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O VELHO, O MAR E A ESTUPIDEZ DOS HOMENS

Ilustração
Imagem Ilustração Gemini

O Velho, o Mar e a Estupidez dos Homens.

Ele era um homem que sabia que nenhum outro escritor americano jamais teve sua estatura ou influência, tanto literária quanto cultural, mas sabia também que, sem aquela ilha, ele não seria quem foi. Ernest Hemingway olhava para trás, para Cuba, o lugar onde viveu mais da metade de sua vida e onde escreveu muitas de suas obras mais significativas, sentindo a ressaca de uma saudade profunda.

Ele lembrava-se de ter dito uma vez: “Em Cuba, encontrei o lugar perfeito para escrever”; não pelo rum, como pensam os turistas que imaginam o gigante de barba grisalha nos bares, mas pela atração magnética do mar e da pesca magnífica que o fez retornar em 1932. Ele via-se novamente no convés do Pilar, ou alugando o Anita do contrabandista Josie Russell, aprendendo que um homem não deve transportar nada "que possa falar". Aquelas águas do Golfo, onde ele caçava submarinos nazistas como se fossem marlins metálicos, eram o seu verdadeiro lar.

Na Finca Vigía, comprada com o dinheiro de Por Quem os Sinos Dobram, ele não estava apenas escrevendo; ele estava vivendo a essência da vida. Ele via a torre branca que Mary construiu para ele — quieta demais para escrever, na verdade — e sentia o cheiro dos livros na biblioteca, onde fazia anotações nas margens sobre o tempo e a pesca.

Mas agora, ao observar o horizonte político, a nostalgia do velho escritor transformava-se em uma fúria silenciosa. Ele lembrava-se bem do início daquele embargo liderado pelos EUA, uma barreira fria que já durava 40 anos na época do documentário.

Se ele pudesse ver a estupidez dos tempos atuais, veria que a crueldade não mudou, apenas os nomes. Ver um líder como Trump bloquear a exportação de petróleo para a ilha, sufocando a energia de um povo que já sofre tanto, seria para ele a repetição de um erro histórico grotesco. Ele, que dedicou sua medalha do Nobel ao povo cubano e à Virgem do Cobre, veria nessa asfixia econômica a semente de mais um genocídio, uma indiferença à vida humana tão brutal quanto a que devasta Gaza. É a mesma tática de cercar, esfomear e esperar que a dignidade morra antes do corpo.

Retornando às suas memórias documentadas, ele sabia que a política sempre tentou manchar a pesca. Ele ficou terrivelmente nervoso no final da vida por ser rotulado como comunista, sabendo que J. Edgar Hoover mantinha arquivos sobre ele. Ele foi cauteloso com a revolução de Fidel no início, tentando cobrir suas bases, embora pudesse ter simpatizado com a mudança de regime. A ironia não lhe escapava: o próprio Castro preservou sua casa e memória porque Por Quem os Sinos Dobram’ ensinou táticas de guerrilha para vencer exércitos maiores.

No fim, o que importava não eram os governos, mas o povo de Cojímar. Aqueles pescadores, seus “heróis”, que doaram as hélices de bronze de seus barcos para fundir um busto em sua homenagem após sua morte. Ele partiu em 1960 para nunca mais voltar à “casa do seu coração”, deixando para trás seus livros, seus troféus e um povo que, apesar dos bloqueios e da estupidez dos políticos do norte, insistia em manter seu legado vivo.

Ernest Hemingway
Ernest Hemingway

Ernest Hemingway (1899-1961) foi um influente escritor norte-americano, vencedor do Nobel de Literatura (1954) e do Pulitzer (1953).

Principais Obras:

  • O Velho e o Mar (1952) — Novela que garantiu o Pulitzer e impulsionou o Nobel.
  • Por Quem os Sinos Dobram (1940) — Baseado em suas vivências na Guerra Civil Espanhola.
  • O Adeus às Armas (1929) — Romance sobre a Primeira Guerra Mundial.
  • O Sol Também Levanta (1926) — Obra marcante da “Geração Perdida”.
  • Paris é uma Festa (1964) — Memórias póstumas sobre sua vida em Paris.

MURROS EM PONTA DE FACA

Ilustração Gemini
Ilustração Gemini

Murros em Ponta de Faca.

Os Estados Unidos vivem uma crise que não é apenas política, mas humana. A chegada de agentes federais a Minnesota, sem convite do governador, abriu uma ferida que expôs a fragilidade do federalismo e a incoerência de um país construído por imigrantes, mas que agora tenta negar suas próprias raízes.

Famílias foram separadas. Pais deportados, filhos cidadãos deixados para trás, obrigados a viver em terras que não conhecem. Como se não bastasse, o histórico conflito racial continua a marcar a vida dos cidadãos negros, ampliando a sensação de exclusão e perseguição.

O paradoxo é evidente: o próprio presidente que impulsionou essas medidas é descendente de imigrantes. Se seus antepassados tivessem sido tratados com a mesma dureza, talvez a história fosse outra.

E é nesse cenário que lembramos nomes como George Floyd, Renee e Pettri. Suas mortes não podem cair no esquecimento. Elas são o lembrete de que políticas autoritárias e violência institucional não apenas dividem a nação, mas ceifam vidas.

Que suas histórias sirvam de alerta para que os Estados Unidos não continuem a dar murros em ponta de faca, ferindo a si mesmos e comprometendo o futuro de todos.

Ilustração Copilot
Ilustração Copilot
OBS. Lembrem-se de que dezenas de imigrantes foram mortos sob custódia do governo Trump.

O ESPELHO ESQUECIDO DA TRANSITORIEDADE.

Ilustração Copilot
Imagem Ilustração Copilot

O Espelho Esquecido da Transitoriedade.

O mundo é um ponto azul. Frágil. Passageiro. Todos nascem, caminham, partem. É simples. Mas o poder esquece. Age como se fosse dono da terra. Ergue muros contra quem busca apenas sobreviver.

O “sonho americano” virou pesadelo. Asfalto. Sangue. René Nicole, uma jovem de 37 anos, morreu em Minnesota. Morta por agentes de imigração. O governo a chamou de “terrorista”. Não era. Era só uma mulher. E mãe. Mãe de três crianças. A palavra “terrorista” serviu para encobrir o crime. Para esmagar a confiança. Para espalhar ódio, revolta.

Menny Chaves também é vítima disso tudo. Vítima do medo. Tem só 16 anos. Ele já não sonha, preocupa-se. Só deseja que os pais voltem do trabalho vivos. Ele fala de um presidente sem empatia. Um homem que trata pessoas como cães. A polícia segue a ordem. Não protege. Ameaça. Mata a tiros.

O tirano esquece que também é passageiro. Persegue o imigrante. Persegue a própria história. Fronteiras são cicatrizes. Elas não param a vida.

Um jovem de Oregon disse: viver assim é morar em casa de vidro. O dono atira pedras nos vizinhos. Não percebe. O último estilhaço vai destruir o próprio teto.

Algo de muito errado está se passando com ele… não é só com a gente, com o mundo. Ninguém está vendo isso?

Fonte / Referência:

Assista: Mídia NINJA / UOL

O BANQUETE SOBRE O ABISMO

O Banquete Sobre o Abismo
Ilustração Gemini

O Banquete Sobre o Abismo.

Tente não se perder no brilho das telas de cinema. Você cresceu acreditando que o mundo é um cenário de Hollywood, onde heróis invencíveis salvam o dia antes dos créditos subirem.

No entanto, a realidade é uma roteirista muito mais cruel e menos afeita a finais felizes. Aquela potência militar insuperável que povoa seus sonhos de consumo foi, na verdade, convidada — isso para dizer o mínimo — a se retirar do Iraque, do Afeganistão e da Líbia, deixando o rastro do amargo regresso de seus próprios filhos do solo do Vietnã.

É curioso observar como vocês, e muitos de seus pares aqui no Brasil, olham para o Norte como se avistassem a Nova Jerusalém.

A verdade, contudo, é que os Estados Unidos estão mergulhados em uma crise sem precedentes, tentando escapar desesperadamente de uma arapuca que eles mesmos montaram: um mundo de fantasia sustentado por falsas comunicações garbosas.

Enquanto você admira o brilho do dólar, saiba que esse país é um dos mais violentos do globo, ostentando quase cinco vezes mais encarcerados per capita do que a China e convivendo com o horror quase diário de sofrer possíveis ataques armados em escolas.

O capitalismo selvagem deles produz uma vida fútil e desprovida de propósito, onde quarenta milhões de pessoas buscam refúgio em drogas e outros cinquenta milhões não sabem se terão o que comer amanhã.

É uma ironia trágica, não acha? Um país com um PIB de 28 trilhões de dólares — catorze vezes maior que o brasileiro — que mantém sua população jogada às traças, sem o básico acesso à saúde.

E no centro desse picadeiro, temos figuras que usam a comunicação para empilhar baboseiras e desviar a atenção de governos que fracassam sistematicamente. Promessas de invasões e fortunas multiplicadas em esquemas de criptomoedas e valores fictícios na bolsa são somente castelos de areia.

São como aquelas esculturas à beira do mar: basta a primeira chuva da realidade para que tudo se desfaça em minutos.

Para entender esse cenário, pense na imagem de um banquete luxuoso servido sobre um tapete que esconde um abismo: os convidados elogiam a prataria e o brilho dos lustres, ignorando que o chão sob seus pés está cedendo, e que o anfitrião, enquanto sorri para as câmeras, já está vendendo as cadeiras onde todos se sentam.

Não se deixe enganar pela estética do poder.

A ganância e a falta de empatia não são defeitos de percurso, são a própria essência de um sistema que idolatra o veneno.

Há quem trate bem os 'ovos das serpentes', esperando gratidão; só não se surpreenda se uma delas o picar. Compreenda: não é por ódio, mas porque é de sua natureza, a mesma que alimenta o fascismo.

O BLUES DO LEVIATÃ NORTE-AMERICANO

A Sombra da Liberdade - Ilustração Gemini
A Sombra da Liberdade - Ilustração Gemini

O Blues do Leviatã Norte-Americano.

Há uma América que pulsa com uma beleza feroz e inegável. É a América do jazz improvisado em porões enfumaçados, onde o trompete chora a dor e a esperança de um povo. É a terra da estrada aberta descrita por Kerouac, da coragem solitária nos ringues de boxe, da prosa limpa de Faulkner e da engenharia que ergueu arranha-céus que tocam o divino. Existe uma vitalidade na cultura norte-americana, uma crença na liberdade individual e na reinvenção do eu que seduz o mundo. É um lugar onde a ideia de “possibilidade” é o oxigênio que se respira.

No entanto, há um paradoxo terrível quando essa nação, que forjou sua identidade na luta contra a tirania colonial, decide projetar sua sombra sobre o continente do sul.

Caracas, 3 de janeiro de 2026. A madrugada não chegou devagar; ela foi imposta. Primeiro, a morte da luz. Um apagão cibernético, frio e calculado, transformou a capital em um abismo escuro. Os radares, cegos. O silêncio eletrônico, absoluto.

Então, veio o som. Não era música. Era a percussão mecânica de aeronaves rasgando o céu tropical. A “Operação Determinação Absoluta”. Um nome limpo para um ato sujo.

Os Night Stalkers desceram. São profissionais, homens feitos de aço e ordens, movendo-se com a precisão de cirurgiões num açougue. O alvo não era um exército, mas uma casa. Forte Tiuna. Nicolás Maduro e Cilia Flores não foram presos, foram sequestrados; ou, melhor (ou pior?), foram extraídos. Sim. Como se arranca um dente inflamado, sem perguntar à boca se ela concorda com a dor.

Mais de cinquenta homens morreram. Eles caíram no escuro, defendendo um portão, uma ideia ou talvez o solo onde nasceram. Para a máquina de guerra que desceu do norte, eles eram apenas estatística, danos colaterais na planilha do Pentágono.

A justificativa veio embalada no celofane retórico de Washington: “narcoterrorismo”. Mas quem conhece o cheiro da pólvora e da política sabe que o buraco é mais embaixo. É o petróleo. O sangue negro da terra. Donald Trump, invocando a sua “Doutrina Don-Roll” — uma Monroe com anabolizantes —, decidiu que o quintal precisava de um novo síndico. Não importa a soberania, não importa o direito internacional. Para ele, tudo isso é balela.

É a política do condomínio global reduzida à lei do mais forte: se não gosto de como você arruma sua sala, eu chuto a sua porta, mato seus cães e te levo acorrentado para Nova York.

Eles levaram o homem, mas deixaram o problema. Em Caracas, o vácuo não foi preenchido pelo pânico, mas por uma rigidez militar. Delcy, Diosdado, Padrino. A estrutura permaneceu. O chavismo cerrou fileiras. Não houve a traição em massa que os analistas de Langley prometeram em seus relatórios de ar-condicionado.

O mundo assiste, atônito. A Rússia e a China, gigantes com pés de barro logísticos, somente observam. O Brasil, vizinho gigante e complexo, sentiu o tremor. O Itamaraty, saindo de sua letargia, condenou o ato. Reconheceram Delcy, não porque gostem dela, mas porque a alternativa de aceitar que fuzileiros estrangeiros possam sequestrar presidentes na América do Sul é um pesadelo geopolítico inaceitável.

No fim, a operação foi um sucesso tático e um desastre moral. Os Estados Unidos, a terra de muitos escritores que nos ensinaram que a coragem é a graça sob pressão, mostraram ao mundo uma face diferente naquela madrugada: a arrogância sob pretexto. Eles provaram que podem apagar as luzes de uma nação inteira, mas ainda não aprenderam a iluminar a própria contradição de ser uma república fundada na liberdade que, volta e meia, é viciada em esmagar a liberdade alheia.

CICATRIZ E VOTO

Ilustração Gemini
Imagem gerada por Gemini

Cicatriz e Voto

Mais um ano se esgota, carregando nas costas o peso dos dias. Um ano difícil, dizem todos… e é verdade. Mas o que o dificulta não são somente as crises que se acumulam, mas a névoa espessa de hipocrisia que as envolve. Falamos de futuro com a língua afiada do passado. Prometemos renovação com os mesmos gestos gastos.

Eis que se aproxima um novo ciclo, com seu ritual inevitável: as eleições. A esperança, frágil e teimosa, reaparece nas esquinas. Será que desta vez…?

A pergunta paira no ar, entre a fé e o ceticismo. É preciso cuidado. A tradição aqui não é apenas a do samba, do futebol ou da hospitalidade. É também a tradição do golpismo, às vezes sutil, às vezes escancarado, que ressurge em novas roupagens, em novos discursos.

É o hábito antigo de sabotar a vontade das urnas quando ela não serve aos interesses de sempre.

Não se trata de pessimismo, mas de lucidez. Conhecer o terreno em que se pisa não é desistir da caminhada; é escolher melhor o próximo passo a seguir. Até porque, a armadilha clássica é acreditar que a história é um conto moral, onde os bons triunfam por pureza. Mas a política real é mais complexa: um tabuleiro onde forças se movem, pactos são feitos e retrocessos são planejados nos bastidores, também.

A hipocrisia do momento está em negar essa realidade constante, em vender soluções mágicas ou salvadores messiânicos. Enquanto isso, as estruturas que permitem o “golpismo” — a desigualdade brutal, a desinformação fabricada, a justiça seletiva — permanecem intocadas.

Portanto, ao entrar no novo ano e no novo ciclo eleitoral, a atenção deve ser redobrada. Não cair novamente na armadilha do "é agora ou nunca". Enfim, não confundir o canto de sereia da polarização com debate político. Desconfiar de quem pede sua confiança total e seu pensamento crítico em troca.

Lembre-se: a verdadeira resistência à tradição golpista começa com a memória. Lembrar o que já foi feito, quem já traiu, quais mecanismos já foram acionados para subverter a democracia. E partir dessa memória para construir, com frieza e paixão, um futuro que não repita os mesmos erros.

Que o ano novo nos encontre menos ingênuos, mais unidos no essencial e absolutamente determinados a não entregar o jogo antes mesmo de ele começar. O risco é constante, sim. Mas a possibilidade de desarmá-lo, essa também é uma tradição que vale a pena cultivar… e isso, sim, a gente não pode esquecer.

O IMPÉRIO CONTRA A ESPERANÇA

O Império Contra A Esperança - Imagem Copilot
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O Império Contra a Esperança.

Eles falam de liberdade. Falam dela com a boca cheia de aço e o hálito quente de discursos em salas com ar condicionado. O homem na Casa Branca, o de cabelo como feno sob vento forte, fala mais alto. Fala de “todas as opções”. Fala de “paz” com os punhos cerrados.

Se Hemingway estivesse vivo, diria haver um velho truque de toureiro: aquele de agitar o capote vermelho até a fera ficar exausta, até o seu próprio sangue a sufocar. Mas quem é o touro e quem é o toureiro? A confusão é feita deliberadamente para confundir a todos.

A Venezuela está doente. Isso, um homem sentado num bar de Maracaibo, com o suor escorrendo pelo copo vazio, até pode dizer com verdade mais profunda que qualquer relatório. É uma dor vista nos ossos do povo, na curva dos ombros das mulheres na fila, no silêncio das crianças. É uma dor seca, dura, que não se cura com discursos de outra terra. A fome não ouve rádio. A sede não vê bandeiras.

Mas o homem da Casa Branca não vê a dor. Vê somente o petróleo negro sob a terra e o espectro que lhe convém, um fantasma útil para fazer a multidão em seu país olhar para longe, unida pelo medo de um inimigo. É uma estratégia antiga. Mais antiga que as colinas. Você cria um demônio no quintal do vizinho para vender mais armas, para parecer mais forte, para que ninguém note o vazio nas próprias prateleiras.

Guerra não é uma coisa que se anuncia com palavras quentes em um púlpito. Ela começa devagar. Primeiro, são as palavras. Depois, o dinheiro que se congela e sufoca como um lago no inverno; os navios que aparecem no horizonte, pontos cinzentos como dentes de tubarão. E depois… depois vem o que sempre vem. Os homens bons morrem por causas que não entenderam. As mulheres choram em portas que não têm mais marcos. As crianças, sempre as crianças, herdam a paisagem arrasada.

É fácil mandar um porta-aviões. É difícil mandar um médico. É fácil decretar um bloqueio, mas é difícil construir uma ponte. A verdadeira coragem, a coragem límpida e dura como gelo, não está na ameaça. Estaria no gesto inesperado. Na mão estendida, sem exigir que o outro se ajoelhe primeiro. Mas isso não dá manchetes. Não enche os olhos daqueles que desejam ver impérios cair, mesmo que seja o império da esperança de um povo.

E assim, enquanto os homens de gravata decidem destinos com canetas sobre mapas, o povo — sempre o povo — espera na fila. Sob o sol implacável do Caribe, com o estômago roncando de vazio, eles ouvem o rumor distante do trovão. Não é a chuva que se aproxima. É a tempestade que os poderosos estão cozinhando, em fogo brando, em seus gabinetes refrigerados.

A guerra é um fracasso. Um fracasso da imaginação, da paciência, da humanidade básica. É a confissão de que não se consegue pensar em mais nada. O homem que a promete como se fosse uma solução é um homem pobre de espírito. E os pobres, os verdadeiramente pobres, serão sempre os primeiros a pagar a conta. Com o seu pouco, com o seu tudo. Com a sua própria luz, que se apaga facilmente.

A CRISE DE TOLSTÓI E A NOSSA

Ilustração Tolstói - Gemini
IMG IA-GEMINI

A Crise de Tolstói e a Nossa.

Liev Tolstói, no auge da fama e da riqueza, foi assombrado por uma pergunta simples: “E depois?”

Sua crise existencial, descrita no livro Uma Confissão, é um espelho para os nossos tempos. Ele viu sua fé e seus ideais se corromperem em ambição e violência, descrevendo o círculo de intelectuais de sua época como um “hospício” de falsas verdades.

Hoje, vemos esse mesmo hospício na retórica de líderes como Netanyahu e Trump. Eles se apoiam em discursos de fé e civilização, enquanto suas ações promovem a aniquilação em Gaza. A religião, em suas mãos, torna-se um escudo para a brutalidade, uma justificativa para o poder.

Tolstói ilustrou seu desespero com a parábola de um viajante pendurado sobre um abismo, agarrado a um galho que está sendo roído por ratos, com o dragão da Morte esperando logo abaixo. Os habitantes de Gaza vivem essa parábola todos os dias, agarrados aos escombros de suas vidas, enquanto a geopolítica e a guerra devoram sua esperança.

Cansado da “tolice” da sabedoria de seu círculo de “parasitas”, Tolstói buscou a verdade no povo simples, que encontrava sentido na vida apesar da miséria. Ele percebeu que a verdadeira fé é a força que impede o ser humano de se destruir.

No entanto, ele não conseguiu abraçar a religião de seu povo por uma razão crucial: a hipocrisia. A Igreja que ele via justificava a guerra e o “assassinato”, tratando todos os que pensavam diferente como inimigos.

Essa é a confissão de nossos tempos. Quando a fé é usada para santificar a violência e desumanizar o outro, ela se torna a mentira que Tolstói rejeitou. A crise dele nos força a encarar a nossa: estamos do lado da retórica do poder ou da verdade do sofrimento humano?

Quem estiver sem tempo de ler, mas quiser ouvir a obra gratuitamente, acesse:

Áudiolivro: "Uma Confissão" (Caverna dos Livros)

"DEUS O LIVRE, POR QUÊ?"

Madrugada Chuvosa - Copilot
img IA via Microsoft Copilot

Deus o Livre, Por Quê?

“Deus o livre”, escutei. Era eu ou era alguém que pensava quando já despertava com o costumeiro zumbido levemente dentro das minhas orelhas também?

Sentei na cama e vi o notebook ligado, o relógio digital marcando quatro e quarenta e sete da manhã. Lá fora, ainda está tudo escuro sob a luz fraca do abajur… mas “Deus o livre”, por quê?

Ouço a chuva macia, o contraste dos graves, dos agudos, ressoando sobre o telhado, as paredes, a janela, entre os frisos da veneziana surge uma lagartixa e abocanha um cupim… “Deus o livre”, por quê?

Ao longe, um galo canta desafinado, repetitivo. Um grilo trina sob a relva, um coaxado, os pingos, o zumbido permanente… o que estava sonhando, afinal…? E “Deus o livre”, por quê?

Deu até impressão de a vida ser tão perigosa. Já nem sei mais quem está morrendo, se sou eu ou o mundo, lá fora. Se é a madrugada, a chuva, o galo, o sapo, o grilo… mas, “Deus o livre”, por quê?

Logo o dia vai raiar, mesmo que continue a chuva macia… logo vai cantar o sabiá, o bem-te-vi, a corruíra, a natureza é tão viva… ora, “Deus o livre”, por quê?

A vida já anda tão triste, tão pesada, com tanta fome, tanta guerra, matança… que já continuar vivo ficou tão difícil, viver… Será por isso o “Deus o livre, por quê?”

AS MINÚSCULAS FORMIGUINHAS DE PORTO ALEGRE

Formigas no Açucareiro - Imagem Gemini
img Gemini

As Minúsculas Formiguinhas de Porto Alegre.

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Com o verão se aproximando, Porto Alegre se prepara para sua verdadeira invasão anual. Não a de turistas, mas a delas: as minúsculas e implacáveis formigas que veem nossa cidade como um grande banquete ao ar livre.

Minha guerra particular começou anos atrás, num oitavo andar na Rua da Praia. Encontrei uma trilha de formigas que, ludibriada pela parede verde do prédio, acreditou ter encontrado a Mata Atlântica, mas acabou estacionando, confusa, no carpete da minha sala. Aquela foi a tropa de reconhecimento; as verdadeiras conquistadoras são as pequeninas, as colonizadoras que não fazem trilhas, simplesmente se materializam no pote de açúcar.

Fugi delas. Mudei de bairro, achando que um novo CEP seria minha salvação, mas foi inútil. Elas já me esperavam no novo endereço, provando não haver refúgio. Em algum formigueiro-mãe, um general de seis patas já deve estar insuflando suas tropas para a campanha de verão:

— Avante! Nenhum grão de açúcar ficará para trás!

Enquanto nós, humanos, nos armamos com simpatias inúteis como cravos e cascas de limão, elas avançam com uma disciplina militar. Aprendemos da forma mais difícil que, no calor porto-alegrense, não somos donos de nossas casas, mas meros inquilinos. A cidade, no fundo, pertence a elas.

Há quem diga que elas fazem bem para os olhos. Não acredito, estão por toda parte… Por falar nisso, preciso checar se não esqueci de fechar meu açucareiro, não é muito palatável tomar café com elas boiando.

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CRÔNICA DA PEC DA 'BLINDAGEM' (BANDIDAGEM)

Justiça Cega - Imagem Gemini

Crônica da PEC da ‘Blindagem’ (Bandidagem).

Nos corredores de mármore, onde o poder se move em sussurros e ofícios, forjaram um escudo. Chamaram-no de emenda, de prerrogativa, mas o seu verdadeiro nome nasceu longe dali, no éter anônimo e brutal das redes. A 'PEC da Blindagem'; na verdade, 'PEC da Bandidagem', foi o batismo de fogo dado por uma nação que viu na manobra não o fortalecimento da democracia, mas a armadura da impunidade. Enquanto a caneta dos deputados corria célere para aprovar o texto, selando um pacto de autoproteção que transcendia partidos, uma fúria digital se avolumava. O que era um murmúrio de indignação tornou-se um maremoto, uma onda de repúdio que não pedia licença, traduzindo o ‘juridiquês’ na hashtag: #CongressoInimigoDoPovo. A conspiração do silêncio oficial foi rompida pelo barulho ensurdecedor de milhões.

Aquele clamor virtual, incorpóreo, não se contentou em existir como dados e píxeis. Ele transbordou, ganhou corpo, suor e voz, descendo para o asfalto quente das capitais. O Brasil respondeu ao chamado. No Rio, a melodia de velhos hinos de resistência uniu gerações em Copacabana. Em São Paulo, uma bandeira imensa, resgatada das mãos que a haviam sequestrado, flutuou sobre um mar de gente na Paulista. Em Brasília, a multidão marchou sobre a Esplanada, numa peregrinação laica ao coração do poder para entregar sua mensagem em cartazes e gritos. De Salvador a Curitiba, a revolta tomou a forma de um carnaval democrático, de um varal da vergonha, da teimosia de corpos que se recusavam a dispersar sob a chuva. O país converteu a fúria do éter em um ato físico, uma afirmação de que a rua ainda lhe pertencia.

O eco daquela gente na rua viajou de volta a Brasília, mas desta vez não bateu em portas fechadas. Entrou pelas frestas do Senado, onde a proposta foi recebida com a frieza de um corpo estranho, e ricocheteou de volta à Câmara, forçando deputados a recuos públicos, a confissões de covardia. A vitória, no entanto, não trouxe o alívio doce da paz, mas o gosto de uma trégua inquieta. A PEC foi ferida de morte, mas a doença que a gerou, a soberba de uma casta que se julga acima da nação, permaneceu. O asfalto se aquietou, mas a memória digital continua a zumbir, vigilante. A batalha foi vencida no grito, mas a guerra por uma República onde a lei seja, de fato, a mesma para todos, essa ainda aguarda seu fim.

Nas próximas eleições, vamos votar com mais responsabilidade, escolhendo um Congresso e Senado que respeite a Soberania, a Democracia e a Constituição.

O PESO DA CANETA E A ESPADA DA LEI

O Peso da Caneta e a Espada da Lei - Imagem Gemini
img Gemini IA

O Peso da Caneta e a Espada da Lei.

Um velho pescador uma vez me disse:

“Um homem deve enfrentar o mar e suas tormentas, mas nenhuma tempestade é maior do que a que um homem cria para si próprio.”

Aqui, nestes trópicos de paixões fervilhantes, a espada da lei desceu com o peso frio do aço. Vinte e sete anos. Não é um número redondo, poético. É um número áspero, pesado, calculado. É o som de uma porta de ferro fechando-se não, a um mandato, mas a uma vida política.

O Supremo Tribunal Federal, em sua magistratura solene, não julgou um homem; julgou um conceito. Julgou a ideia de que a autoridade é um salvo-conduto para a insubordinação, de que o poder concede o direito de torcer a verdade até que ela se assemelhe a uma ficção perigosa.

Eles o condenaram por suas palavras, por seus acenos, por seus sussurros em saletas e por seus gritos em praças cheias. Condenaram o arquiteto pelo que suas criaturas fizeram; o maquinista, pelo descarrilamento do trem. Foi a sentença que muitos, em outras terras, esperavam ver.

Do outro lado do equador, em uma nação vista como farol, um homem similar incendiou a praça com gasolina retórica e depois contemplou o incêndio.

A invasão ao Capitólio não foi uma revolta espontânea; foi um ato encenado, o epílogo previsível de um espetáculo de meses. As pessoas não foram meramente incentivadas; foram instrumentalizadas. Elas escalaram paredes, quebraram vidraças, e no rosto delas estava não a fúria da razão, mas o êxtase da obediência cega.

Trump olhou, consentiu e certamente sorriu. A história exigia uma resposta à altura. Exigia que a espada da lei cortasse com a mesma veemência e precisão com que cortou aqui, mas lá, o sistema vacilou. As engrenagens da justiça moveram-se com a lentidão de um rio entupido de tralha política.

Ele foi julgado, sim, mas pela boca do povo nas urnas, não pela mão firme dos togados. A justiça legal ficou aquém. O preço que pagou foi a derrota, não a prisão. Um preço baixo para quem quase quebrou a espinha dorsal de uma grande democracia.

Aqui, a lição foi diferente. O STF não mediu a sentença pela popularidade do réu ou pelos ventos políticos do momento. Mediu-a pela gravidade dos atos, pela tentativa de rasgar o contrato social que nos mantém civilizados. Vinte e sete anos é uma sentença para que os livros de história a registrem não como uma vingança, mas como um lembrete: ninguém está acima da República.

A diferença crucial é esta: enquanto em algumas praças a justiça ainda debate se deve pescar com rede ou com arpão, aqui lançou o arpão no peixe grande. E acertou em cheio.

Não se celebra a queda de um homem. Celebra-se a ascensão de um princípio. O princípio de que as palavras têm consequências, que o poder é empréstimo e ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de atear fogo no telhado da casa que abriga a todos nós.

O velho pescador sabia. Um homem que provoca a tempestade deve estar preparado para naufragar nela. Sozinho. E a justiça, quando verdadeira, não é um salva-vidas. É o farol que mostra os rochedos onde os irresponsáveis se arrebentam.

Aqui, o farol funcionou. Lá, do outro lado, somente piscou… e o mundo todo estava olhando.

Fonte / Referência:

Matéria: New York Times

O PASSADO NÃO É SILÊNCIO

Leonel Brizola - Campanha da Legalidade
img Arquivo Nacional

O PASSADO NÃO É SILÊNCIO.

Porto Alegre, fim de agosto de 1961. O ar cheira a pólvora até às margens do Guaíba. O vento corta o Cais, trazendo consigo o peso da história. A cidade, antes tranquila, agora vibra com uma tensão geral que se espalha pelas ruas.

No Palácio Piratini, Leonel Brizola está falando no microfone, olhos fixos. Sua voz, rouca e firme, ecoa nos alto-falantes da Rádio Guaíba, atravessando a noite com avisos inflamados.

Na Praça da Matriz, a multidão se aglomera. Homens de chapéu, mulheres de lenço, jovens com os punhos cerrados. Todos esperam, estão prontos, todos sabem… se tiver que acontecer, vai de fato acontecer.

A Brigada Militar mantém posição, rifles prontos, olhos atentos. Ninguém sabe se os tanques federais virão, se os tiros começarão antes do amanhecer, mas todos estão prontos, também.

Nos bares, o papo é só um: o país está à beira de uma guerra civil. Alguns falam baixo, outros gritam. A cerveja ajuda, mas não apaga o medo de ninguém. É necessário, é urgente, querem trair a constituição, a soberania, a nação.

Os jornais estampam manchetes em letras grossas:

“O ABISMO SE APROXIMA”, “RESISTIR OU ENTREGAR O PAÍS” (Última Hora); “A NAÇÃO NA ENCRUZILHADA” (Correio do Povo); “LEGALIDADE OU DITADURA” (Diário de Notícias)

A democracia, pendurada por um fio, eles querem arrancá-la de nossas mãos. Brizola não recua. Suas palavras são facas cravadas no ar, cortando a indecisão. Legalidade ou guerra. O povo responde, ocupa as ruas, ergue cartazes, desafia o silêncio dos quartéis.

Os dias se arrastam. A tensão sufoca. Mas a chama não se apaga… ninguém arreda o pé enquanto não restabelecerem a legalidade…

Hoje, o vento mudou, mas o cheiro no ar é o mesmo. Novos tanques não avançam pelas ruas, mas as ameaças são reais. Os ‘filhotes da ditadura’ voltaram, agora estão de terno e gravata, falando em ordem, pátria, Deus e família enquanto querem desmontar direitos, vender o país, negar a história. Querem o passado de volta, com suas botas, seus porões, seus medos e novas torturas.

O povo precisa voltar às praças, às ruas. Ainda há microfones que não se calaram. A chama crioula ainda arde, ainda resiste, o vento sopra, mas ela é teimosa, não se apaga, insiste em queimar.

A ARTE DE AFUNDAR O PRÓPRIO BARCO

A Arte de Afundar o Próprio Barco
img-ArtTower-pixabay

A Arte de Afundar o Próprio Barco.

Há uma certa maestria perversa em como alguns governos parecem especialistas em cavar o próprio buraco, e depois se surpreenderem quando caem nele. A sobretaxação de Trump às exportações brasileiras, anunciada para agosto, não chega a ser um raio em céu azul. É mais um capítulo previsível duma novela escrita com tintas de irresponsabilidade e interesses escusos.

Lembro-me, não sem amargura, do governo anterior. Enquanto o ex-presidente brincava de negacionista e Moro distribuía sentenças como se fossem panfletos, o país afundava. Mais de 700 mil mortos pela Covid, muitos deles vítimas do atraso criminoso na vacinação. As empreiteiras, estranguladas por bloqueios econômicos, levaram junto empregos e sonhos. A Petrobrás, entregue aos ventos do mercado, virou um poço sem fundo para o bolso do trabalhador.

Agora, o filho do mesmo ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, decide fazer turismo conspiratório nos EUA, alimentando teorias que só servem de munição para Trump. O resultado? O magnata americano, sempre ávido por um 'bode expiatório', usa o Brasil como alvo fácil. A taxa de 50% sobre nossas exportações não é só um golpe no agronegócio, mas o preço de uma diplomacia feita de improviso e servilismo.

É irônico. O mesmo governo que abraçou Trump como ídolo agora leva um chute do herói. O mesmo time que condenou o país ao caos sanitário e econômico agora assiste, de camarote, a mais uma crise que poderia ter sido evitada.

No fim, a lição é clara: quando se governa para interesses escusos, sejam eles de juízes midiáticos, milicianos ou adoradores de lunáticos estrangeiros, o preço sempre vem. E quem paga, como sempre, somos nós.

Isso precisa mudar, realmente. 😐

RAZÃO E SENTIMENTO

Razão e Sensibilidade na estante do autor
(Acervo pessoal do autor)

Razão e Sentimento: A Alma de Jane Austen.

Em um mundo onde as mulheres eram esperadas somente para sentir, Jane Austen ousou pensar e escrever. Com uma pena afiada e um coração atento, ela desenhou personagens que, embora confinadas pelas convenções do século XIX, transbordavam humanidade.

Em Razão e Sensibilidade, Austen nos apresenta Elinor e Marianne Dashwood, duas irmãs que encarnam o eterno conflito entre lógica e emoção. Elinor, com sua compostura e prudência, representa a razão. Marianne, com sua paixão e impulsividade, é a sensibilidade em carne viva.

Mas Austen, com sua ironia sutil e olhar compassivo, não toma partido. Ela nos mostra que viver exige ambos: o cálculo e o risco, o silêncio e o grito. A crônica da vida de Jane Austen é, ela mesma, uma dança entre esses polos.

Sem grandes escândalos ou romances arrebatadores, sua existência foi marcada por observação, introspecção e escrita, uma forma de resistência silenciosa. Em tempos em que o destino feminino era o casamento, Austen escolheu a literatura como sua aliança mais duradoura.

Século após século, suas palavras continuam a nos tocar. Porque, no fundo, todos somos um pouco Elinor e Marianne tentando equilibrar o que sentimos com o que sabemos. E é nesse delicado balanço que Jane Austen permanece viva.

Leia este clássico gratuitamente (Domínio Público):

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SEMPRE AS DESCULPAS

Idoso no banco da praça
Ilustração: Vilkasss-elderly (Pixabay)

Sempre as ‘Desculpas’.

Estava no banco da praça, o rádio sussurrando notícias entre estatística e vento. Mais uma tarifa de Trump, desta vez contra o Brasil. Os passarinhos não se importaram, mas eu ouvi. Sempre ouço.

Ele não inventou nada. Só pegou o velho argumento da anistia, embrulhou na bandeira verde-amarela e vendeu como mais uma novidade. Depois veio o aço, a segurança nacional, o déficit. Sempre uma desculpa, sempre alguém pra culpar. Um homem assim não tem amigos, só alvos.

Os brasileiros que o veneram deveriam abrir os olhos. Ele taxou europeus, chineses, canadenses… até os que se ajoelharam diante dele. Ninguém escapa. Ninguém. Se pudesse, cobraria imposto do sol que nasce no Leste.

Mas o pior não é o dinheiro que some. É a fé que sobra. Acreditar que ele faz isso por honra, por America First, ou é ingenuidade, ou estupidez. Ele faz porque é negócio. E negócio, para um homem desses, não tem bandeira, acredite.

Desliguei o rádio. Os passarinhos continuaram, indiferentes. Olhei o céu. Choverá amanhã? Não sei. Aqui no Sul isso também se tornou preocupação. No fim, como sempre, a conta chega. E quem paga somos nós… sempre as mesmas desculpas.

A ÚLTIMA PEDRA

A Última Pedra - Reflexão
img-Pixabay-Qimono

A Última Pedra.

O sol nasce. O sol se põe. A Terra gira, como sempre girou. Os cientistas dizem que nosso planeta ainda tem bilhões de anos pela frente, se nada interferir. Mas o homem parece decidido a ser essa interferência.

Vejo as notícias. Homens em salas fechadas apertam botões que podem acabar com cidades inteiras. Falam em estratégia, em defesa, em honra. Mas não falam no silêncio que virá depois. O silêncio dos pássaros que não cantarão mais, dos rios que não correrão, dos filhos que não nascerão.

É como Sísifo. Empurramos a pedra morro acima, suando, praguejando, achando que estamos fazendo algo grandioso. E quando quase chegamos ao topo, ela rola de volta. Guerra. Paz. Guerra outra vez. Sempre a mesma pedra, sempre o mesmo suor inútil.

Os oceanos continuam lá. As montanhas também. O céu, por enquanto, não caiu. Mas há homens que parecem ansiosos para derrubá-lo.

Talvez a Terra sobreviva a nós. Quem sabe, talvez, quando nossa espécie já tiver virado pó, o planeta continue girando, indiferente. O sol nascerá. O sol se porá. E não haverá ninguém para ver.

É uma crônica triste, sim, mas crônicas tristes também precisam ser contadas... enquanto ainda há tempo.

O VELHO ÓDIO

O Velho Ódio - Netanyahu

O Velho Ódio

Os sóis caem sobre Tel Aviv como brasas no olho do deserto. Netanyahu fica à janela, o rosto talhado em sombras duras, os olhos, dois pedaços de carvão acesos. Tem as mãos calejadas de tanto apertar gatilhos invisíveis, de tanto assinar ordens que chegam a Gaza como trovões de chumbo.

"Eles nos oprimem", diz ele, baixo, para os fantasmas que o rodeiam. "Os persas, os árabes, o mundo inteiro nos oprimem."

Mas o vento que vem do mar traz o cheiro de pólvora e sangue, e as paredes do seu gabinete murmuram nomes em hebraico e árabe, todos iguais: mortos, mortos, mortos, e mais mortos no fim.

Lá fora, as ruas de Gaza são um tapete de escombros, e pais cavam com as mãos nuas entre os destroços, buscando os filhos que o fogo de Netanyahu engoliu. Quem oprime quem? O velho líder sabe a resposta, mas a enterra fundo dentro de si, como um soldado enterra a baioneta na terra molhada depois da batalha.

"Se não dominarmos o Oriente Médio, eles nos dominarão", pensa, enquanto acaricia o mapa como quem afia uma faca. Mas os mapas são traiçoeiros — nunca mostram os ossos que os sustentam.

No Irã, os aiatolás, em surdina, olham para o líder de Israel, e dizem: "O monstro que nos justifica." E assim gira essa roda, o sangue alimentando o sangue, o ódio justificando o ódio.

Netanyahu olha para o céu, onde os drones zumbem como moscas sobre a carne podre. Talvez ele sonhe com um império. Talvez só tema o abismo.

Será que ele não sabe que o homem que luta contra as feras pode acabar se tornando uma pior?

No fim, não há vencedores nas guerras eternas. Só sobreviventes, cada vez mais sozinhos, cada vez mais vazios... enquanto isso, o Mediterrâneo, indiferente, continua a levar os corpos para debaixo do chão.

Contexto e Referências:

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