3 de fev. de 2026

O VELHO, O MAR E A ESTUPIDEZ DOS HOMENS

 

Imagem Ilustração Gemini

O Velho, o Mar e a Estupidez dos Homens.


Ele era um homem que sabia que nenhum outro escritor americano jamais teve sua estatura ou influência, tanto literária quanto cultural, mas sabia também que, sem aquela ilha, ele não seria quem foi. Ernest Hemingway olhava para trás, para Cuba, o lugar onde viveu mais da metade de sua vida e onde escreveu muitas de suas obras mais significativas, sentindo a ressaca de uma saudade profunda.


Ele lembrava-se de ter dito uma vez: “Em Cuba, encontrei o lugar perfeito para escrever”. E não era pelo rum, como pensam os turistas que imaginam o gigante de barba grisalha nos bares, mas pela atração magnética do mar e da pesca magnífica que o fez retornar em 1932. Ele via-se novamente no convés do Pilar, ou alugando o Anita do contrabandista Josie Russell, aprendendo que um homem não deve transportar nada "que possa falar". Aquelas águas do Golfo, onde ele caçava submarinos nazistas como se fossem marlins metálicos, eram o seu verdadeiro lar.


Na Finca Vigía, comprada com o dinheiro de Por Quem os Sinos Dobram, ele não estava apenas escrevendo; ele estava vivendo a essência da vida. Ele via a torre branca que Mary construiu para ele — quieta demais para escrever, na verdade, — e sentia o cheiro dos livros na biblioteca, onde fazia anotações nas margens sobre o tempo e a pesca.


Mas agora, ao observar o horizonte político, a nostalgia do velho escritor transformava-se em uma fúria silenciosa. Ele lembrava-se bem do início daquele embargo liderado pelos EUA, uma barreira fria que já durava 40 anos na época do documentário.


Se ele pudesse ver a estupidez dos tempos atuais, veria que a crueldade não mudou, apenas os nomes. Ver um líder como Trump bloquear a exportação de petróleo para a ilha, sufocando a energia de um povo que já sofre tanto, seria para ele a repetição de um erro histórico grotesco. Ele, que dedicou sua medalha do Nobel ao povo cubano e à Virgem do Cobre, veria nessa asfixia econômica a semente de mais um genocídio, uma indiferença à vida humana tão brutal quanto a que devasta Gaza. É a mesma tática de cercar, esfomear e esperar que a dignidade morra antes do corpo.


Retornando às suas memórias documentadas, ele sabia que a política sempre tentou manchar a pesca. Ele ficou terrivelmente nervoso no final da vida por ser rotulado como comunista, sabendo que J. Edgar Hoover mantinha arquivos sobre ele. Ele foi cauteloso com a revolução de Fidel no início, tentando cobrir suas bases, embora pudesse ter simpatizado com a mudança de regime. A ironia não lhe escapava: o próprio Castro preservou sua casa e memória porque Por Quem os Sinos Dobram’ ensinou táticas de guerrilha para vencer exércitos maiores.


No fim, o que importava não eram os governos, mas o povo de Cojímar. Aqueles pescadores, seus “heróis”, que doaram as hélices de bronze de seus barcos para fundir um busto em sua homenagem após sua morte. Ele partiu em 1960 para nunca mais voltar à “casa do seu coração”, deixando para trás seus livros, seus troféus e um povo que, apesar dos bloqueios e da estupidez dos políticos do norte, insistia em manter seu legado vivo.


Vídeo/Documentario (Dublado) 👈 (Documentário contado nas palavras do próprio Hemingway).

Vídeo/Documentário (English) 👈