5 de jan. de 2026

O BLUES DO LEVIATÃ AMERICANO

 
A Sombra da Liberdade - Ilustração Gemini

O Blues do Leviatã Americano.

Há uma América que pulsa com uma beleza feroz e inegável. É a América do jazz improvisado em porões enfumaçados, onde o trompete chora a dor e a esperança de um povo. É a terra da estrada aberta descrita por Kerouac, da coragem solitária nos ringues de boxe, da prosa limpa de Faulkner e da engenharia que ergueu arranha-céus que tocam o divino. Existe uma vitalidade na cultura norte-americana, uma crença na liberdade individual e na reinvenção do eu que seduz o mundo. É um lugar onde a ideia de “possibilidade” é o oxigênio que se respira.

No entanto, há um paradoxo terrível quando essa nação, que forjou sua identidade na luta contra a tirania colonial, decide projetar sua sombra sobre o continente do sul.

Caracas, 3 de janeiro de 2026. A madrugada não chegou devagar; ela foi imposta. Primeiro, a morte da luz. Um apagão cibernético, frio e calculado, transformou a capital em um abismo escuro. Os radares, cegos. O silêncio eletrônico, absoluto.

Então, veio o som. Não era música. Era a percussão mecânica de aeronaves rasgando o céu tropical. A “Operação Determinação Absoluta”. Um nome limpo para um ato sujo.

Os Night Stalkers desceram. São profissionais, homens feitos de aço e ordens, movendo-se com a precisão de cirurgiões num açougue. O alvo não era um exército, mas uma casa. Forte Tiuna. Nicolás Maduro e Cilia Flores não foram presos, foram sequestrados; ou, melhor (ou pior?), foram extraídos. Sim. Como se arranca um dente inflamado, sem perguntar à boca se ela concorda com a dor.

Mais de cinquenta homens morreram. Venezuelanos. Eles caíram no escuro, defendendo um portão, uma ideia ou talvez o solo onde nasceram. Para a máquina de guerra que desceu do norte, eles eram apenas estatística, danos colaterais na planilha do Pentágono.

A justificativa veio embalada no celofane retórico de Washington: “narcoterrorismo”. Mas quem conhece o cheiro da pólvora e da política sabe que o buraco é mais embaixo. É o petróleo. O sangue negro da terra. Donald Trump, invocando a sua “Doutrina Don-Roll” — uma Monroe com anabolizantes —, decidiu que o quintal precisava de um novo síndico. Não importa a soberania, não importa o direito internacional. Pra ele, tudo isso é balela.

É a política do condomínio global reduzida à lei do mais forte: se não gosto de como você arruma sua sala, eu chuto a sua porta, mato seus cães e te levo acorrentado para Nova York.

Eles levaram o homem, mas deixaram o problema. Em Caracas, o vácuo não foi preenchido pelo pânico, mas por uma rigidez militar. Delcy, Diosdado, Padrino. A estrutura permaneceu. O chavismo cerrou fileiras. Não houve a traição em massa que os analistas de Langley prometeram em seus relatórios de ar-condicionado.

O mundo assiste, atônito. A Rússia e a China, gigantes com pés de barro logísticos, somente observam. O Brasil, vizinho gigante e complexo, sentiu o tremor. O Itamaraty, saindo de sua letargia, condenou o ato. Reconheceram Delcy, não porque gostem dela, mas porque a alternativa de aceitar que fuzileiros estrangeiros possam sequestrar presidentes na América do Sul é um pesadelo geopolítico inaceitável.

No fim, a operação foi um sucesso tático e um desastre moral. Os Estados Unidos, a terra de muitos escritores que nos ensinaram que a coragem é a graça sob pressão, mostraram ao mundo uma face diferente naquela madrugada: a arrogância sob pretexto. Eles provaram que podem apagar as luzes de uma nação inteira, mas ainda não aprenderam a iluminar a própria contradição de ser uma república fundada na liberdade que, volta e meia, é viciada em esmagar a liberdade alheia.