
img Arquivo Nacional
O
PASSADO NÃO É SILÊNCIO.

Porto
Alegre, fim de agosto de 1961. O ar cheira a pólvora até às margens do Guaíba.
O vento corta o Cais, trazendo consigo o peso da história. A cidade, antes
tranquila, agora vibra com uma tensão geral que se espalha pelas ruas.
No
Palácio Piratini, Leonel Brizola está falando no microfone, olhos fixos. Sua
voz, rouca e firme, ecoa nos alto-falantes da Rádio Guaíba, atravessando a
noite com avisos inflamados.
Na
Praça da Matriz, a multidão se aglomera. Homens de chapéu, mulheres de lenço,
jovens com os punhos cerrados. Todos esperam, estão prontos, todos sabem… se
tiver que acontecer, vai de fato acontecer.
A
Brigada Militar mantém posição, rifles prontos, olhos atentos. Ninguém sabe se
os tanques federais virão, se os tiros começarão antes do amanhecer, mas todos
estão prontos, também.
Nos
bares, o papo é só um: o país está à beira de uma guerra civil. Alguns falam
baixo, outros gritam. A cerveja ajuda, mas não apaga o medo de ninguém. É
necessário, é urgente, querem trair a constituição, a soberania, a nação.
Os
jornais estampam manchetes em letras grossas: “O ABISMO SE APROXIMA”, “RESISTIR OU ENTREGAR O PAÍS” (Última
Hora); “A NAÇÃO NA ENCRUZILHADA” (Correio
do Povo); “LEGALIDADE OU DITADURA”
(Diário de Notícias)…
A
democracia, pendurada por um fio, eles querem arrancá-la de nossas mãos.
Brizola não recua. Suas palavras são facas cravadas no ar, cortando a
indecisão. Legalidade ou guerra. O povo responde, ocupa as ruas, ergue
cartazes, desafia o silêncio dos quartéis.
Os
dias se arrastam. A tensão sufoca. Mas a chama não se apaga… ninguém arreda o
pé enquanto não restabelecerem a legalidade…
Hoje,
o vento mudou, mas o cheiro no ar é o mesmo. Novos tanques não avançam pelas
ruas, mas as ameaças são reais. Os ‘filhotes da ditadura’ voltaram, agora estão
de terno e gravata, falando em ordem, pátria, Deus e família enquanto querem
desmontar direitos, vender o país, negar a história. Querem o passado de volta,
com suas botas, seus porões, seus medos e novas torturas.
O
povo precisa voltar às praças, às ruas. Ainda há microfones que não se calaram.
A chama crioula ainda arde, ainda resiste, o vento sopra, mas ela é teimosa,
não se apaga, insiste em queimar.