18 de ago. de 2025

O PASSADO NÃO É SILÊNCIO

 

img Arquivo Nacional

O PASSADO NÃO É SILÊNCIO.

 


Porto Alegre, fim de agosto de 1961. O ar cheira a pólvora até às margens do Guaíba. O vento corta o Cais, trazendo consigo o peso da história. A cidade, antes tranquila, agora vibra com uma tensão geral que se espalha pelas ruas.


No Palácio Piratini, Leonel Brizola está falando no microfone, olhos fixos. Sua voz, rouca e firme, ecoa nos alto-falantes da Rádio Guaíba, atravessando a noite com avisos inflamados.


Na Praça da Matriz, a multidão se aglomera. Homens de chapéu, mulheres de lenço, jovens com os punhos cerrados. Todos esperam, estão prontos, todos sabem… se tiver que acontecer, vai de fato acontecer.


A Brigada Militar mantém posição, rifles prontos, olhos atentos. Ninguém sabe se os tanques federais virão, se os tiros começarão antes do amanhecer, mas todos estão prontos, também.


Nos bares, o papo é só um: o país está à beira de uma guerra civil. Alguns falam baixo, outros gritam. A cerveja ajuda, mas não apaga o medo de ninguém. É necessário, é urgente, querem trair a constituição, a soberania, a nação.


Os jornais estampam manchetes em letras grossas: “O ABISMO SE APROXIMA”, “RESISTIR OU ENTREGAR O PAÍS” (Última Hora); “A NAÇÃO NA ENCRUZILHADA” (Correio do Povo); “LEGALIDADE OU DITADURA” (Diário de Notícias)…


A democracia, pendurada por um fio, eles querem arrancá-la de nossas mãos. Brizola não recua. Suas palavras são facas cravadas no ar, cortando a indecisão. Legalidade ou guerra. O povo responde, ocupa as ruas, ergue cartazes, desafia o silêncio dos quartéis.


Os dias se arrastam. A tensão sufoca. Mas a chama não se apaga… ninguém arreda o pé enquanto não restabelecerem a legalidade…


Hoje, o vento mudou, mas o cheiro no ar é o mesmo. Novos tanques não avançam pelas ruas, mas as ameaças são reais. Os ‘filhotes da ditadura’ voltaram, agora estão de terno e gravata, falando em ordem, pátria, Deus e família enquanto querem desmontar direitos, vender o país, negar a história. Querem o passado de volta, com suas botas, seus porões, seus medos e novas torturas.


O povo precisa voltar às praças, às ruas. Ainda há microfones que não se calaram. A chama crioula ainda arde, ainda resiste, o vento sopra, mas ela é teimosa, não se apaga, insiste em queimar.






18 de jul. de 2025

A ARTE DE AFUNDAR O PRÓPRIO BARCO

 
img-ArtTower-pixabay

A Arte de Afundar o Próprio Barco.

 

Há uma certa maestria perversa em como alguns governos parecem especialistas em cavar o próprio buraco, e depois se surpreenderem quando caem nele. A sobretaxação de Trump às exportações brasileiras, anunciada para agosto, não chega a ser um raio em céu azul. É mais um capítulo previsível duma novela escrita com tintas de irresponsabilidade e interesses escusos.

 

Lembro-me, não sem amargura, do governo anterior. Enquanto o ex-presidente brincava de negacionista e Moro distribuía sentenças como se fossem panfletos, o país afundava. Mais de 700 mil mortos pela Covid, muitos deles vítimas do atraso criminoso na vacinação. As empreiteiras, estranguladas por bloqueios econômicos, levaram junto empregos e sonhos. A Petrobrás, entregue aos ventos do mercado, virou um poço sem fundo para o bolso do trabalhador.

 

Agora, o filho do mesmo ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, decide fazer turismo conspiratório nos EUA, alimentando teorias que só servem de munição para Trump. O resultado? O magnata americano, sempre ávido por um 'bode expiatório', usa o Brasil como alvo fácil. A taxa de 50% sobre nossas exportações não é só um golpe no agronegócio, mas o preço de uma diplomacia feita de improviso e servilismo.

 

É irônico. O mesmo governo que abraçou Trump como ídolo agora leva um chute do herói. O mesmo time que condenou o país ao caos sanitário e econômico agora assiste, de camarote, a mais uma crise que poderia ter sido evitada.


No fim, a lição é clara: quando se governa para interesses escusos, sejam eles de juízes midiáticos, milicianos ou adoradores de lunáticos estrangeiros, o preço sempre vem. E quem paga, como sempre, somos nós. 


Isso precisa mudar, realmente. 😐


DCM/youtube.

UOL (RECORTE)

Mídia Ninja (recorte)




RAZÃO E SENTIMENTO


Razão e Sentimento: A Alma de Jane Austen. 



Em um mundo onde as mulheres eram esperadas somente para sentir, Jane Austen ousou pensar e escrever. Com uma pena afiada e um coração atento, ela desenhou personagens que, embora confinadas pelas convenções do século XIX, transbordavam humanidade. 

Em Razão e Sensibilidade, Austen nos apresenta Elinor e Marianne Dashwood, duas irmãs que encarnam o eterno conflito entre lógica e emoção. Elinor, com sua compostura e prudência, representa a razão. Marianne, com sua paixão e impulsividade, é a sensibilidade em carne viva. 

Mas Austen, com sua ironia sutil e olhar compassivo, não toma partido. Ela nos mostra que viver exige ambos: o cálculo e o risco, o silêncio e o grito. A crônica da vida de Jane Austen é, ela mesma, uma dança entre esses polos. 

Sem grandes escândalos ou romances arrebatadores, sua existência foi marcada por observação, introspecção e escrita, uma forma de resistência silenciosa. Em tempos em que o destino feminino era o casamento, Austen escolheu a literatura como sua aliança mais duradoura. 

Século após século, suas palavras continuam a nos tocar. Porque, no fundo, todos somos um pouco Elinor e Marianne tentando equilibrar o que sentimos com o que sabemos. E é nesse delicado balanço que Jane Austen permanece viva.









11 de jul. de 2025

SEMPRE AS DESCULPAS

Ilustração-Vilkasss-elderly-Pixabay


Sempre as ‘Desculpas’.


Estava no banco da praça, o rádio sussurrando notícias entre estatística e vento. Mais uma tarifa de Trump, desta vez contra o Brasil. Os passarinhos não se importaram, mas eu ouvi. Sempre ouço.

Ele não inventou nada. Só pegou o velho argumento da anistia, embrulhou na bandeira verde-amarela e vendeu como mais uma novidade. Depois veio o aço, a segurança nacional, o déficit. Sempre uma desculpa, sempre alguém pra culpar. Um homem assim não tem amigos, só alvos.

Os brasileiros que o veneram deveriam abrir os olhos. Ele taxou europeus, chineses, canadenses… até os que se ajoelharam diante dele. Ninguém escapa. Ninguém. Se pudesse, cobraria imposto do sol que nasce no Leste.

Mas o pior não é o dinheiro que some. É a fé que sobra. Acreditar que ele faz isso por honra, por América First, ou é ingenuidade, ou estupidez. Ele faz porque é negócio. E negócio, para um homem desses, não tem bandeira, acredite.

Desliguei o rádio. Os passarinhos continuaram, indiferentes. Olhei o céu. Choverá amanhã? Não sei. Aqui no Sul isso também se tornou preocupação. No fim, como sempre, a conta chega. E quem paga somos nós… sempre as mesmas desculpas.




19 de jun. de 2025

A ÚLTIMA PEDRA

 
img-Pixabay-Qimono

A Última Pedra.

 

O sol nasce. O sol se põe. A Terra gira, como sempre girou. Os cientistas dizem que nosso planeta ainda tem bilhões de anos pela frente, se nada interferir. Mas o homem parece decidido a ser essa interferência.

Vejo as notícias. Homens em salas fechadas apertam botões que podem acabar com cidades inteiras. Falam em estratégia, em defesa, em honra. Mas não falam no silêncio que virá depois. O silêncio dos pássaros que não cantarão mais, dos rios que não correrão, dos filhos que não nascerão.

É como Sísifo. Empurramos a pedra morro acima, suando, praguejando, achando que estamos fazendo algo grandioso. E quando quase chegamos ao topo, ela rola de volta. Guerra. Paz. Guerra outra vez. Sempre a mesma pedra, sempre o mesmo suor inútil.

Os oceanos continuam lá. As montanhas também. O céu, por enquanto, não caiu. Mas há homens que parecem ansiosos para derrubá-lo.

Talvez a Terra sobreviva a nós. Quem sabe, talvez, quando nossa espécie já tiver virado pó, o planeta continue girando, indiferente. O sol nascerá. O sol se porá. E não haverá ninguém para ver.

É uma crônica triste, sim, mas crônicas tristes também precisam ser contadas... enquanto ainda há tempo.