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| A Sombra da Liberdade - Ilustração Gemini |
O Blues do Leviatã Americano.
Há uma América que pulsa com uma beleza feroz e inegável. É
a América do jazz improvisado em porões enfumaçados, onde o trompete chora a
dor e a esperança de um povo. É a terra da estrada aberta descrita por Kerouac,
da coragem solitária nos ringues de boxe, da prosa limpa de Faulkner e da
engenharia que ergueu arranha-céus que tocam o divino. Existe uma vitalidade na
cultura norte-americana, uma crença na liberdade individual e na reinvenção do
eu que seduz o mundo. É um lugar onde a ideia de “possibilidade” é o oxigênio
que se respira.
No entanto, há um paradoxo terrível quando essa nação, que
forjou sua identidade na luta contra a tirania colonial, decide projetar sua
sombra sobre o continente do sul.
Caracas, 3 de janeiro de 2026. A madrugada não chegou
devagar; ela foi imposta. Primeiro, a morte da luz. Um apagão cibernético, frio
e calculado, transformou a capital em um abismo escuro. Os radares, cegos. O
silêncio eletrônico, absoluto.
Então, veio o som. Não era música. Era a percussão mecânica
de aeronaves rasgando o céu tropical. A “Operação Determinação Absoluta”. Um
nome limpo para um ato sujo.
Os Night Stalkers desceram. São profissionais, homens
feitos de aço e ordens, movendo-se com a precisão de cirurgiões num açougue. O
alvo não era um exército, mas uma casa. Forte Tiuna. Nicolás Maduro e Cilia
Flores não foram presos, foram sequestrados; ou, melhor (ou pior?), foram
extraídos. Sim. Como se arranca um dente inflamado, sem perguntar à boca se ela
concorda com a dor.
Mais de cinquenta homens morreram. Venezuelanos. Eles caíram
no escuro, defendendo um portão, uma ideia ou talvez o solo onde
nasceram. Para a máquina de guerra que desceu do norte, eles eram apenas
estatística, danos colaterais na planilha do Pentágono.
A justificativa veio embalada no celofane retórico de Washington:
“narcoterrorismo”. Mas quem conhece o cheiro da pólvora e da política sabe que
o buraco é mais embaixo. É o petróleo. O sangue negro da terra. Donald Trump,
invocando a sua “Doutrina Don-Roll” — uma Monroe com anabolizantes —, decidiu
que o quintal precisava de um novo síndico. Não importa a soberania,
não importa o direito internacional. Pra ele, tudo isso é balela.
É a política do condomínio global reduzida à lei do mais
forte: se não gosto de como você arruma sua sala, eu chuto a sua porta, mato
seus cães e te levo acorrentado para Nova York.
Eles levaram o homem, mas deixaram o problema. Em Caracas, o
vácuo não foi preenchido pelo pânico, mas por uma rigidez militar. Delcy,
Diosdado, Padrino. A estrutura permaneceu. O chavismo cerrou fileiras. Não
houve a traição em massa que os analistas de Langley prometeram em seus
relatórios de ar-condicionado.
O mundo assiste, atônito. A Rússia e a China, gigantes com
pés de barro logísticos, somente observam. O Brasil, vizinho gigante e
complexo, sentiu o tremor. O Itamaraty, saindo de sua letargia, condenou o ato.
Reconheceram Delcy, não porque gostem dela, mas porque a alternativa de aceitar
que fuzileiros estrangeiros possam sequestrar presidentes na América do Sul é
um pesadelo geopolítico inaceitável.
No fim, a operação foi um sucesso tático e um desastre
moral. Os Estados Unidos, a terra de muitos escritores que nos ensinaram que a
coragem é a graça sob pressão, mostraram ao mundo uma face diferente naquela
madrugada: a arrogância sob pretexto. Eles provaram que podem apagar as luzes
de uma nação inteira, mas ainda não aprenderam a iluminar a própria contradição
de ser uma república fundada na liberdade que, volta e meia, é viciada em
esmagar a liberdade alheia.