O QUE RESISTE
A guerra chega devagar, como um homem velho subindo uma escada. Primeiro um pé, depois o outro. Depois, quando você menos espera, ela está ali, sentada na sua sala, contando mentiras sobre honra.
Estive pensando nisso esta manhã, enquanto limpava meus óculos. As notícias chegam pelo rádio, pelas redes sociais, mas as notícias nunca contam a verdade. Dizem que o Irã está fabricando armas nucleares. Dizem ser preciso agir com a mesma voz com que disseram sobre o Iraque, sobre o Afeganistão, sobre tantos lugares que já não existem mais como existiam.
Estamos falando de uma civilização cujos ancestrais ainda viviam em cavernas. E isso não é arrogância, é apenas um fato. Os norte-americanos sequestraram o presidente na Venezuela. Disseram ser por causa das drogas. Sabemos que não é isso. É pelo petróleo que brilha na superfície da água como sangue de peixe.
Um homem pode justificar qualquer coisa se tiver uma boa história. Na guerra, aliás, cada um com sua própria justificativa. Não importa se eles têm famílias, têm receios, têm olhos que nos olham enquanto perecem. No final, a justificativa não importa. O que importa é que eles estarão mortos e eu estou aqui, escrevendo sobre isso.
O petróleo é apenas petróleo. Queima, move máquinas, suja as mãos. Mas os homens matam por ele como matam por mulheres ou por terras há mais de três mil anos. Nada muda. Apenas as armas ficam mais eficientes.
No Irã, as crianças ainda devem estar brincando nas ruas. Os mercados ainda devem estar cheios de especiarias e tecidos coloridos. Os velhos ainda devem se sentar à sombra das mesquitas azuis, contando histórias sobre Alexandre e sobre os árabes e sobre os mongóis que vieram e foram embora. Porque no Oriente Médio os impérios vêm e vão como as marés, mas o povo fica.
Agora virão os bombardeios inteligentes, as munições guiadas por precisão, os comunicados oficiais. Chamarão de operação, de intervenção, de defesa preventiva. Mas no fundo é sempre a mesma coisa: homens com poder enviando homens sem poder para matar outros homens que também não têm poder.
E quando tudo acabar, quando o último poço estiver seco e a última bomba tiver caído, o que restará? Os poemas persas ainda existirão. As mesquitas ainda estarão de pé, talvez. E os velhos continuarão sentados à sombra, contando sobre o tempo em que os americanos vieram, com suas justificativas e suas bombas, e depois foram embora.
Porque, no fim, a única coisa que realmente importa é o que resiste. O petróleo acaba. As justificativas também. Mas um povo antigo, milenar, que já viu impérios nascerem e morrerem, esse continuará.
Vai prestar vestibular? Aprofunde-se no tema desta crônica com esta aula de geopolítica:
▶ Assistir Aula no YouTube